Dentro e fora do governo, multiplicam-se as mentes obtusas que se deixaram atormentar pela notícia de um encontro do economista André Lara Resende com o presidente da República reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva, nos próximos dias. Todos reproduzindo a tensão do chamado “mercado” diante da possibilidade de um conjunto de medidas que ponha fim aos ganhos astronômicos de bancos e especuladores a partir da taxa Selic de 13,75% hoje.

Esta angústia entre os defensores desse modelo de juros asfixiantes nasceu com o corajoso artigo de André Lara Resende, Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, publicado em 25 de setembro.

No texto revelador, ele expõe a perversão da utilização de juros exorbitantes para combater a inflação, enquanto o próprio governo alimenta uma dívida pública monumental para remunerar os detentores de títulos do Tesouro.

Um dos formuladores do revolucionário e salvador Plano Real, Lara Resende não pode ser desqualificado como aventureiro, como sugerem alguns “yuppies” que confundem macroeconomia com sistema financeiro especulativo. Sua denúncia questiona a lógica de uma política monetária que impõe sacrifícios à produção, ao emprego e às contas públicas, enquanto assegura remuneração extraordinária ao capital financeiro.

Lara Resende propõe maior coordenação entre as políticas fiscal e monetária e uma trajetória de redução dos juros.

Ninguém explica por que o Brasil praticamente abandonou os instrumentos seletivos de controle do crédito como mecanismos auxiliares de combate à inflação.

Durante a ditadura militar, governos utilizaram mecanismos de disciplina da expansão bancária para enfrentar pressões inflacionárias.

Em 1964, no governo Castelo Branco, foram criados o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central, com instrumentos para regular o crédito e administrar a liquidez da economia.

No governo Geisel, em 1976, o ministro Mário Henrique Simonsen adotou medidas como aumento dos depósitos compulsórios, restrições aos empréstimos e redução dos prazos de financiamento de bens duráveis.

A lógica era simples. Em vez de combater toda expansão da demanda exclusivamente com juros elevados, seria possível restringir determinadas operações de crédito, procurando preservar financiamentos considerados essenciais à produção.

O controle seletivo permite, por exemplo, exigir entradas maiores, reduzir prazos e impor condições mais rigorosas aos financiamentos que estejam estimulando excessos de consumo. A Selic, ao contrário, encarece indiscriminadamente o dinheiro para empresas, agricultores, comerciantes e famílias.

Não se trata de glorificar a política econômica da ditadura. Aqueles mecanismos não extinguiram a inflação, e algumas experiências produziram recessão. Mas demonstraram que existem instrumentos capazes de complementar a política monetária convencional.

É justamente essa discussão que interessa ao Brasil. Não há garantia de que controles seletivos permitam reduzir imediatamente a Selic, mas tampouco existe justificativa para tratar os juros elevados como único instrumento legítimo de combate à inflação.

Enquanto isso, milhões de brasileiros afundam no endividamento, empresas pagam caro pelo capital de giro e o Tesouro compromete recursos monumentais com juros da dívida pública. Uma rotina que enriquece bancos e empobrece o Estado.

Naturalmente, reduzir a Selic exige responsabilidade. Pressões cambiais e inflacionárias não desaparecem por decreto. Mas transformar esses riscos em argumentos para perpetuar juros exorbitantes significa aceitar a imobilidade como política de Estado.

O Lula do segundo turno de 2026 saiu forte das ruas, que esperam por uma política que ponha fim à taxa Selic exorbitante, que tirou do governo algo perto de R$ 5,58 trilhões em pagamentos de juros da dívida pública nos últimos dez anos. Uma conta que, inclusive, deixa o governo com pouco mais de R$ 70 bilhões para investimentos por ano.