Imagine um mundo em que o relógio biológico simplesmente parou e a morte deixou de ser destino para virar formulário. É desse ponto de partida que nasce Cartório das Almas, filme escrito e dirigido por Leo Bello que chega ao circuito nesta quinta-feira (29). Em apenas 77 minutos, a obra transforma a imortalidade, sonho antigo da humanidade, em um fardo burocrático, carimbado e arquivado como qualquer outro trâmite de repartição pública.

No centro dessa engrenagem está Laura, vivida por Gabriela Correa, uma funcionária de 126 anos encarregada de acolher quem decidiu encerrar a própria jornada. Sua função é escutar, anotar os motivos e oficializar a despedida, sem jamais opinar. A ironia que sustenta a personagem é cruel e eficiente, já que ela registra diariamente a liberdade alheia enquanto um contrato a proíbe de exercer o mesmo direito. Gabriela entrega uma interpretação de gestos econômicos e olhar cansado, como se cada século vivido pesasse sobre os ombros dela.

Foto: Divulgação/Pandora Filmes

Há uma delicadeza poética no que acontece depois da partida. Quem escolhe morrer não desaparece, mas ganha asas e passa a habitar o céu da cidade como pássaro. Os corvos, em especial, deixam de ser apenas presságio e viram memória viva daquela sociedade, espalhados pelo quadro como lembretes silenciosos de quem foi embora. A solução é engenhosa porque foge do luto convencional e oferece uma imagem nova para um tema tão gasto pelo cinema.

O grande trunfo, porém, está na fotografia de Pedro Maffei. Rodado integralmente em Brasília, o longa descobre na capital modernista um laboratório perfeito para a ficção científica. O Museu Nacional, a Torre Digital e a vastidão do Cerrado surgem como peças de um amanhã estranho e plausível, com suas curvas de concreto, horizontes largos e espaços quase desertos. Quem mora na cidade terá a sensação curiosa de reconhecer cada esquina e, ao mesmo tempo, estranhá-la por completo.

Foto: Divulgação/Pandora Filmes

A direção de arte de Maíra Carvalho, premiada no Festival de Brasília, reforça essa atmosfera com objetos e ambientes pensados nos mínimos detalhes. O mesmo festival reconheceu o desenho de som de Olivia Hernandez, que preenche o silêncio da capital com ruídos de vento, folhas e asas. A trilha assinada por Negro Leo e Piqueras Santangelo aparece com parcimônia, sempre a serviço da estranheza. Entre um diálogo e outro, a câmera se demora em insetos e plantas do Cerrado, e esses pequenos intervalos de contemplação rivalizam em beleza com o drama humano.

O tropeço está no roteiro. Bello constrói um universo fascinante, mas economiza demais nas explicações sobre como ele funciona. Não fica claro como a humanidade parou de envelhecer, quais normas regem o cartório nem por que Laura assinou um contrato tão restritivo. Parte desse mistério alimenta a curiosidade do espectador, mas em vários momentos a ausência de informação deixa lacunas que o público precisa remendar por conta própria, o que enfraquece o impacto das escolhas dos personagens.

Foto: Divulgação/Pandora Filmes

O elenco de apoio, formado por Wellington Abreu, Chico Sant’Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes, segue o tom contido proposto pela direção e evita qualquer excesso. Cada cliente que atravessa a porta do cartório traz uma razão diferente para desistir, e esses relatos funcionam como pequenos contos sobre o tédio, a saudade e a exaustão de existir sem prazo. É nesses encontros que o filme encontra sua alma mais humana.

Cartório das Almas é um exemplar raro da fantasia nacional, mais interessado em provocar reflexão do que em entregar respostas prontas. Agrada em cheio a quem aprecia cinema contemplativo e histórias sobre o sentido da finitude, embora possa frustrar quem prefere tramas diretas e regras bem definidas. Mesmo com o roteiro nebuloso, a ousadia da premissa e o olhar inventivo sobre a arquitetura brasiliense fazem da estreia um convite que merece ser aceito.

Confira o trailer: 

https://www.youtube.com/watch?v=Al0j1i_A_eA

Ficha Técnica
Direção: Leo Bello;
Roteiro: Leo Bello;
Elenco: Gabriela Correa, Wellington Abreu, Gabrielle Lopes, Deni Moreira, Paula Passos, Chico Sant’Anna;
Gênero: Ficção científica, Drama;
Duração: 77 minutos;
Distribuição: Pandora Filmes;
Classificação indicativa: 14 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Espaço Z