Uma empresa de Brasília com apenas três meses de atuação no mercado já conquistou espaço entre as principais torrefações do país. A Deslim Cafés, comandada pelos empresários Carlos Guimarães e Monique Alves, está entre as 20 finalistas do Torrefação do Ano Brasil 2026, competição que reuniu 161 instituições de diferentes regiões brasileiras e terá sua etapa decisiva entre 11 e 13 de novembro, durante a Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte (MG).

A classificação coloca a jovem empresa brasiliense, que fica localizada em Águas Claras, em destaque em um setor que exige conhecimento técnico, precisão e capacidade de identificar as características de cada grão. Para chegar à final, a Deslim desenvolveu diferentes perfis de torra para dois cafés disponibilizados pela organização do campeonato e submeteu as amostras a sucessivas avaliações sensoriais até selecionar as versões que considerou mais promissoras.

carlos guimarães e monique alves

“Mesmo sendo uma caminhada não tão longa, porque a gente tem pouco tempo que abriu, estamos muito felizes pelos resultados”, afirma Carlos Guimarães, proprietário da Deslim Cafés ao lado de Monique Alves.

A competição é organizada pela Atilla Torradores e avalia não apenas a qualidade da bebida, mas também a capacidade das empresas de identificar e comunicar os atributos sensoriais dos cafés. Na fase classificatória, os participantes receberam 1,5 quilo de cada um dos dois grãos crus e realizaram a torra em suas próprias instalações. As amostras foram avaliadas por meio do cupping, método de prova de xícara utilizado para analisar características como aroma, acidez, doçura, corpo e possíveis defeitos.

Para a Deslim, a preparação exigiu experimentação e atenção às particularidades de cada café. Os grãos desta edição são provenientes da Fazenda Paraíso, ligada ao Grupo Diamante Cafés, na região de Caparaó, em Minas Gerais. Um deles passou pelo processamento natural; o outro, pelo método cereja descascado, que influencia diretamente as características sensoriais da bebida.

A equipe desenvolveu aproximadamente seis perfis de torra para cada café. “Depois desses perfis, realizamos mais de 15 processos de prova, que é o cupping. Com isso, conseguimos não só selecionar o melhor perfil de torra, como também aprimorar o que já tínhamos escolhido para cada grão”, explica Carlos.

Na prática, o trabalho consiste em testar diferentes tempos e condições de torra para entender como cada grão reage ao calor. Pequenas mudanças podem influenciar a percepção de doçura, acidez, corpo e notas aromáticas, alterando a experiência de quem consome a bebida.

Segundo Johann Emmerick, diretor do Torrefação do Ano Brasil, os jurados consideram dois aspectos principais, a qualidade alcançada na xícara e a precisão da descrição sensorial apresentada pela própria torrefação. A proposta é verificar se a empresa consegue valorizar o potencial do café e comunicar ao consumidor características que realmente estejam presentes na bebida. “Cada grão tem origem, processo e caráter próprios, e o mestre que entende isso ajusta os parâmetros para valorizar o terroir daquele café, sem impor a ele um padrão único”, afirma Emmerick.

Final terá desafio adicional com café expresso

A etapa decisiva, marcada para 11 a 13 de novembro, no Expominas, em Belo Horizonte, trará uma dificuldade a mais para as finalistas. Além de trabalhar com os cafés natural e cereja descascada separadamente, as empresas terão de preparar uma mistura dos dois grãos, conhecida como blend, que será avaliada no método espresso.

De acordo com Emmerick, esse tipo de preparo intensifica tanto os atributos positivos quanto eventuais defeitos da torra, tornando o desafio ainda mais exigente. A equipe vencedora precisará demonstrar consistência na preparação dos cafés e capacidade de encontrar uma combinação equilibrada para a bebida.

A Deslim já trabalha na preparação para essa fase. A empresa pretende realizar novos testes, ajustar os perfis desenvolvidos anteriormente e utilizar os resultados da primeira avaliação para aprimorar o desempenho. “A expectativa é sempre entregar o nosso melhor. Estamos desenvolvendo outros perfis de torra e tentando melhorar alguns critérios em que a pontuação não foi tão elevada. Seguimos treinando, provando e ajustando para chegar à final da melhor forma possível”, conta Carlos.

Para o empresário, além da possibilidade de conquistar o título, o encontro com outras torrefações experientes representa uma oportunidade de aprendizado. A troca de conhecimentos e o contato com diferentes métodos de trabalho podem contribuir para o aperfeiçoamento da empresa, independentemente do resultado final.

A conquista também coloca em evidência o mercado de cafés especiais do Distrito Federal. Na avaliação de Carlos, Brasília já conta com torrefações e cafeterias especializadas e tem consumidores interessados em experimentar diferentes origens, métodos de preparo e perfis sensoriais. Ainda assim, existe espaço para ampliar o público.

Um dos desafios, segundo ele, é apresentar o café especial de maneira acessível, sem transformar o conhecimento técnico em uma barreira para quem está começando a explorar esse universo. “O maior desafio é não espantar os clientes com muita coisa técnica, muitos processos. É trazer realmente o café especial para o lado mais cotidiano, sem tanto rigor técnico na extração ou tantas mirabolâncias. A ideia é tornar o café especial mais amigável para o consumidor”, afirma.

A proposta da Deslim é aproximar o produto da rotina das pessoas e mostrar que apreciar um café de qualidade não exige conhecimento aprofundado nem a adoção de um único método de preparo. A experiência pode acontecer com um espresso, um café filtrado ou até uma bebida com leite, de acordo com a preferência de cada consumidor. “A primeira experiência nasce no grão, mas o principal é que não tem jeito errado de gostar de café. Se a pessoa gosta com cappuccino, com leite, com açúcar, do filtrado ou do expresso, não tem um jeito errado. Se gosta de café, já está valendo”, diz Carlos.

A presença na final do Torrefação do Ano Brasil 2026 representa um marco para a Deslim, que ainda está nos primeiros meses de operação. Em um campeonato com participantes de diferentes regiões e níveis de experiência, a classificação oferece visibilidade ao trabalho desenvolvido em Brasília e abre espaço para novas conexões no setor.

O título dará à empresa vencedora uma torrefadora Atilla Bancada de segunda geração. Os três primeiros colocados também receberão troféus e selos correspondentes às posições conquistadas. Além disso, o mestre de torra da campeã terá vaga garantida no Campeonato Brasileiro de Torra de 2028, organizado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), enquanto as demais finalistas receberão pontos que poderão ser utilizados em inscrições para torneios.