Quase três séculos depois de surgir às margens do Rio Corumbá, durante o ciclo do ouro, Corumbá de Goiás busca transformar a própria história e as paisagens naturais em motores para o desenvolvimento turístico. Com 296 anos, o município reúne casarões coloniais, igrejas centenárias, ruas de pedra, cachoeiras, trilhas e uma produção gastronômica que vem ganhando espaço entre os atrativos da região.
A cidade integra a Rota dos Pireneus e está inserida em um circuito turístico que conecta municípios como Pirenópolis e Cocalzinho de Goiás. O movimento tem atraído visitantes interessados principalmente em experiências ligadas à natureza, mas também em história, cultura, gastronomia e descanso.
Para Roberio Siquiero, gerente comercial da ABL Prime, Corumbá vive um momento de expansão do turismo. Segundo ele, a proximidade com destinos já consolidados contribui para colocar o município no radar de novos visitantes: “Vivemos, sem exagero, o melhor momento do turismo na região”, afirma.
Um dos principais responsáveis por esse fluxo é o Salto Corumbá, parque ecológico que reúne cachoeiras, hospedagem, camping, restaurantes e atividades de aventura. O local recebe mais de dez mil visitantes por mês e se tornou um dos principais cartões-postais do município.
A paisagem que hoje atrai turistas, no entanto, também está ligada à origem econômica da cidade. Corumbá de Goiás surgiu no século XVIII durante as expedições de exploração do ouro. O ciclo da mineração perdeu força com o passar dos anos, mas deixou como herança um conjunto arquitetônico e cultural que permanece presente no município.
Casarões e igrejas preservam a memória
No centro histórico, casarões, sobrados, igrejas e ruas de pedra ajudam a reconstruir parte da história de Corumbá. Segundo o historiador Ramir Curado, a área antiga chegou a reunir mais de 200 edificações. Cerca de metade desse conjunto foi preservada ao longo das transformações urbanas, e aproximadamente 100 imóveis estão protegidos pelo tombamento.
As mudanças mais significativas na arquitetura ocorreram principalmente a partir das décadas de 1960 e 1970. Enquanto regiões mais afastadas do centro passaram por alterações, as famílias tradicionais contribuíram para manter parte das construções antigas. “E as famílias mais antigas da cidade seguraram isso e o movimento surgiu e veio o tombamento”, relata Ramir.
Foto: Haissam MassouhEntre os principais símbolos desse patrimônio está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. A construção começou por volta de 1750, período em que os antigos arraiais goianos passaram a ganhar igrejas permanentes. “Foi na década de 1750 que em todos os arraiais goianos surgiram as igrejas definitivas”, explica o historiador.
A construção dessas igrejas acompanhou o processo de consolidação dos povoados e de uma sociedade que começava a contar com artesãos e profissionais especializados na produção de altares, imagens religiosas e pinturas.
As ruas de pedra também fazem parte da identidade do município. O calçamento irregular, conhecido como “pé de moleque”, é uma das marcas mais visíveis da arquitetura colonial preservada.
A história do centro também guarda episódios que revelam a participação de pessoas escravizadas na formação econômica da cidade. Um deles é o de Siaca, mulher escravizada cuja trajetória foi pesquisada por Ramir.
Segundo o historiador, ela teria cultivado trigo nos fundos da casa onde vivia e comercializado a produção. Com o dinheiro acumulado, teria conseguido comprar a própria liberdade e posteriormente construído um sobrado.
Corumbá chegou a ter 13 sobrados coloniais. A história de Siaca chama atenção justamente porque seu imóvel fazia parte de um conjunto predominantemente associado aos proprietários de terras e descendentes dos antigos exploradores da região. “Ela era uma ex-escrava que estava no meio deles”, destaca Ramir.
O município também passou por outras transformações arquitetônicas. O antigo prédio do cinema, construído em 1939, apresenta características do art déco, enquanto outros imóveis incorporaram elementos do estilo eclético. As diferentes construções revelam as mudanças pelas quais Corumbá passou ao longo dos séculos.
Cachoeiras e trilhas ampliam o roteiro
Além do patrimônio histórico, a natureza é um dos principais motivos que levam turistas ao município. A região é marcada por serras, rios, cachoeiras e formações rochosas, oferecendo atividades de ecoturismo e aventura.
O Salto Corumbá é o principal exemplo. O parque reúne sete cachoeiras, além de estrutura de hospedagem e atividades para visitantes. Entre elas está a queda que dá nome ao local, com aproximadamente 50 metros de altura.
Corumbá também é ponto de partida do Caminho de Cora Coralina, percurso de mais de 300 quilômetros que termina na Cidade de Goiás. A presença da trilha amplia o potencial do município para o turismo de caminhada e de experiência.
Para Rodrigo Estivallet, proprietário do Salto Corumbá, o perfil do visitante está diretamente relacionado à busca por uma pausa na rotina. “As pessoas vão até Corumbá de Goiás em busca de contato com a natureza, viver experiências, e estar em um contexto de desaceleração e contemplação”, afirma.
Foto: DivulgaçãoA gastronomia é outro segmento que vem ganhando espaço. A altitude da região, que chega a cerca de 1.200 metros em alguns pontos, contribuiu para o desenvolvimento da vitivinicultura. A produção de queijos também passou a integrar a identidade gastronômica regional.
Essas atividades estão conectadas à Rota dos Pireneus, que reúne produtores, restaurantes e hospedagens de Corumbá, Pirenópolis e Cocalzinho de Goiás.
Para Roberio Siquiero, a variedade de experiências é um dos diferenciais do município. “O turista encontra ecoturismo, turismo histórico, religioso e gastronômico no mesmo município — e é justamente essa diversidade o maior diferencial da cidade”, avalia.
Cultura também movimenta o destino
A identidade turística de Corumbá não se resume às paisagens. As manifestações culturais ajudam a manter vivas tradições que atravessaram gerações.
Entre elas estão as cavalhadas, realizadas em setembro durante as celebrações de Nossa Senhora da Penha, as folias ligadas à Festa do Divino Espírito Santo e as tradições da Semana Santa.
A música também ocupa um espaço importante. Fundada em 1890, a Corporação Musical 13 de Maio é considerada a mais antiga banda civil em atividade no estado de Goiás.
A literatura é outro elemento presente na história local. Corumbá é associada aos escritores Bernardo Élis e José J. Veiga, enquanto a Academia Corumbaense de Letras promove atividades voltadas à preservação da produção literária e da memória cultural do município.
Novos empreendimentos acompanham crescimento
Com o aumento do interesse turístico, a estrutura de hospedagem também começa a se transformar. Condomínios horizontais voltados para segunda moradia e locação de curta temporada passaram a surgir como uma nova frente de investimento.
O Salto Imperial, desenvolvido pela ABL Prime e pela Trinus, é um dos empreendimentos que fazem parte desse movimento. A primeira etapa do projeto teve alta procura, segundo a empresa.
A expansão imobiliária também é observada pelo poder público. A secretária de Turismo de Corumbá de Goiás, Gheovanna Lowrranny, afirma que a chegada de novos empreendimentos amplia as possibilidades de hospedagem e experiências no município.
Segundo ela, o primeiro projeto contribuiu para abrir espaço para outras iniciativas, e o município já registra consultas relacionadas à implantação de novos empreendimentos.
Para Roberio, esse crescimento pode ajudar a enfrentar um dos principais desafios do turismo local: a concentração do movimento em finais de semana e feriados. “O maior desafio de Corumbá é transformar potencial em infraestrutura turística”, afirma.
Na avaliação dele, a expansão da oferta de hospedagem pode contribuir para aumentar o tempo de permanência dos visitantes e reduzir a sazonalidade.
Turismo como fonte de renda
O crescimento do setor também gera reflexos na economia local. Hotéis, restaurantes, produtores rurais, empresas de turismo, comércio e prestadores de serviços são alguns dos segmentos beneficiados pelo aumento da circulação de visitantes.
A Rota dos Pireneus contribui para esse movimento ao aproximar turistas de produtores de queijos e vinhos e de estabelecimentos gastronômicos da região.
O desenvolvimento imobiliário também passou a fazer parte dessa cadeia. Segundo a ABL Prime, o Salto Imperial já responde por aproximadamente 300 empregos diretos e indiretos.
O número ganha dimensão quando comparado à população do município, que tem pouco mais de dez mil habitantes. Dados do IBGE citados pela empresa apontam ainda que cerca de mil pessoas estavam ocupadas formalmente em Corumbá em 2019.
Para Roberio, a combinação entre turismo e novos investimentos pode ampliar a geração de renda no município. “O turismo é hoje um dos motores mais concretos de geração de renda para Corumbá”, afirma.
Próximos passos
O município também trabalha para estruturar o turismo a longo prazo. Em parceria com o Sebrae, Corumbá desenvolve um plano de ação para buscar o reconhecimento como Destino Turístico Inteligente, modelo que considera aspectos como inovação, sustentabilidade e acessibilidade na gestão dos destinos.
A estratégia acompanha uma mudança na forma como o município pretende se apresentar aos visitantes. Em vez de depender de um único atrativo, Corumbá busca reunir diferentes experiências em um mesmo roteiro.
A cidade que nasceu com a exploração do ouro encontra, séculos depois, outra forma de transformar seus recursos em riqueza. As pedras das ruas, os altares das igrejas, as histórias dos antigos moradores, as cachoeiras, as trilhas, os queijos e os vinhos passaram a compor um produto turístico que combina passado e presente.
O desafio, agora, é fazer com que esse crescimento seja acompanhado por infraestrutura, preservação e oportunidades para a população local. Para a ABL Prime, a diversidade é justamente o que pode garantir um fluxo turístico mais constante. “Ela não depende de uma única atração nem de uma única estação do ano”, resume Roberio.