MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS
Os ativos domésticos passaram por uma correção nesta terça-feira (27) após o estresse da véspera (26), quando o dólar registrou a maior valorização diária desde 1999 e os juros futuros dispararam mais de 250 pontos-base em função da reeleição do presidente Lula (PT) para um quarto mandato.
Nesta terça, a moeda americana encerrou o pregão em queda de 1,14%, a R$ 5,348, após subir 8,41%, para R$ 5,409, na segunda-feira.
Os juros futuros também recuaram em bloco durante a sessão. A taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 caiu 48 pontos-base, para 14,340%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 recuava 37 pontos-base, para 14,91%.
A Bolsa, por outro lado, destoou do movimento de correção, em um pregão volátil. O Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, recuou 0,50%, para 175.710 pontos, após avançar 1,08% na máxima do dia. As perdas foram pressionadas pelas ações da Petrobras.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, o pregão foi marcado por ajustes de posições após a forte turbulência da véspera. "O Ibovespa chegou a ensaiar uma recuperação nas primeiras horas da manhã, mas perdeu fôlego no decorrer do dia. Em contrapartida, o câmbio operou em terreno negativo durante a maior parte do dia, proporcionando um alívio ao mercado."
Para ela, os investidores seguem à espera de novas sinalizações do governo sobre os nomes que ocuparão os cargos da equipe econômica e as propostas de ajuste fiscal.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta terça-feira (27) que reafirmou ao presidente Lula a necessidade de dar uma sinalização ao mercado. Segundo ele, o governo já tem medidas prontas para apresentar, incluindo iniciativas para buscar o centro da meta fiscal.
"O presidente vai definir a equipe dele, depois a equipe vai apresentar quais serão essas medidas em termos de ajuste, em termos de perseguição da meta para mostrar que o compromisso deste governo do presidente é com responsabilidade fiscal", afirmou.
A aliados, Lula já sinalizou a possibilidade de indicar o governador do Piauí, Rafael Fonteles, para o Ministério da Fazenda. Fonteles teria sinalizado que aceitaria renunciar ao cargo eletivo para assumir o comando da pasta.
Na segunda-feira, a Bolsa teve forte queda e encerrou o pregão em recuo de 13,88%, a 176.608 pontos, na maior desvalorização diária desde 16 de março de 2020, quando recuou 13,92%. Na ocasião, a queda foi provocada pelos impactos da pandemia de coronavírus sobre a economia global.
A magnitude do recuo da última segunda-feira fez com que a B3 acionasse o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020.
O movimento também se refletiu nos juros futuros. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2028 subiu 196 pontos-base, para 14,380%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 avançou 265 pontos-base, para 15,277%.
A reação negativa dos ativos brasileiros reverteu parte da valorização registrada nas semanas anteriores à eleição, quando investidores apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e na adoção de medidas mais rigorosas de ajuste fiscal. Com a vitória de Lula (PT), o dólar voltou ao maior patamar desde dezembro, enquanto a Bolsa recuou ao menor nível desde agosto.
O resultado surpreendeu investidores que já haviam incorporado aos preços dos ativos a expectativa de vitória de Flávio, segundo Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX. A reeleição de Lula elevou os temores de uma política fiscal mais expansionista e de um aumento do endividamento público, ampliando a percepção de risco sobre os ativos brasileiros.
"O resultado levou a um forte reposicionamento das carteiras de investimento. Os agentes passaram a enxergar, no novo governo Lula, a perspectiva de uma política fiscal mais expansionista, que poderia acelerar o endividamento público brasileiro. Com isso, aumentou significativamente a percepção de risco dos ativos nacionais, elevando a exigência de prêmios de risco", afirma Mattos.
Nesta terça-feira, contudo, o movimento foi oposto. O dólar e os juros futuros passaram por uma correção. Para analistas, o recuo não altera a expectativa de alta volatilidade dos ativos domésticos nos próximos pregões, mas reflete um ajuste após as fortes altas registradas na segunda-feira.
"Os próximos meses serão dedicados à definição e ao alinhamento da equipe, à elaboração de um plano e de suas bases de execução, além da articulação da governabilidade. Tudo isso deve contribuir para um ambiente de incerteza e, consequentemente, de volatilidade. Um anúncio fora de tom ou de lugar, uma frustração ou outra pode ampliar esse movimento", diz Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research.
Na Bolsa, o pregão foi de volatilidade. Das 76 ações que compõem o Ibovespa, 36 subiram e 40 caíram. Algumas ações cíclicas, especialmente de varejistas, empresas de saúde e bancos, avançaram em um movimento de recuperação.
Na segunda-feira, Magazine Luiza e Hapvida estiveram entre as maiores quedas do índice, com recuos de 58,23% e 54,93%, respectivamente. Nesta terça, porém, as ações revertem parte das perdas, com altas de cerca de 5% e 4%.
Para Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, porém, as empresas devem continuar sob pressão. "Se o mercado não gostar dos próximos passos do governo, o dólar deve abrir e a taxa de juros deve continuar crescendo […]. Há a possibilidade de diversificar e escolher nomes de empresas com receitas dolarizadas ou que possuem grande parte de seus mercados no exterior, mas os nomes ligados à atividade cíclica vão sofrer bastante."
No mercado de juros futuros, a recuperação foi impulsionada por operações de recompra de títulos pelo Tesouro Nacional. Nesta terça-feira, o órgão anunciou a recompra de títulos IPCA+ e cancelou leillão de Tesouro Selic. Na véspera, o Tesouro recomprou do mercado 5 milhões de títulos do Tesouro Prefixado com Juros Semestrais, em uma operação que totalizou R$ 7,1 bilhões.
As operações buscam conter a disparada dos juros futuros, em meio à expectativa de que a taxa Selic caia em ritmo mais lento, diante dos temores de uma política fiscal mais permissiva sob o governo Lula.
As intervenções procuram reduzir a volatilidade no mercado de juros futuros, cujas taxas balizam as expectativas para a trajetória da Selic e influenciam operações como empréstimos e financiamentos. As medidas se assemelham a iniciativas adotadas em março, no início da guerra no Irã.
Para analistas da Warren, as operações sinalizam a preocupação em preservar as condições de funcionamento do mercado de títulos públicos.
"Ao longo das próximas horas e dos próximos dias, devemos ver a atuação do Banco Central no câmbio, de forma a restabelecer a funcionalidade do mercado, e do Tesouro no mercado de títulos, para enxugar o excesso de vendas e ajudar o mercado a encontrar um novo equilíbrio de preços", afirma a instituição em relatório assinado por Luis Felipe Vital, Cecília Mazzoni e Felipe Figueiró.
Jornal de Brasília
Dólar e juros futuros recuam após disparada com vitória de Lula; Bolsa fecha em baixa
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