Matheus Montenegro, dirigente do Fluminense afirmou, durante a audiência pública sobre bets no STF, que o “drama de uma família endividada não pode ser maior” do que o de uma família afetada pelo desemprego após o fim das receitas de apostas no futebol. A fala ocorreu na defesa de um período de transição para a proibição das bets.

A cabeleireira terminava a última mecha da minha tintura quando eu ouvi aquilo no celular. Fiquei quieta na cadeira, vendo o loiro começar a aparecer e pensando que tem argumento que chega embrulhado em linguagem técnica, mas não esconde a frieza.

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“Eu ouvi muito se falar sobre drama, o drama das famílias, o drama do endividamento. E isso é verdade, o Fluminense não nega isso. Só que também, Excelência, existe um drama do desemprego”, declarou o representante.

Eu pedi um minuto antes de ir para a lavagem, porque precisava escutar de novo. O problema não é reconhecer que desemprego destrói famílias, porque destrói mesmo. O problema é transformar o endividamento provocado por apostas em uma espécie de drama menor, como se quem perdeu dinheiro para bet pudesse entrar numa fila de sofrimento.

O advogado disse que os clubes enfrentariam perda de receita e que agremiações menores poderiam sentir ainda mais o impacto. “O que que os clubes vão fazer se a receita acabar?”, questionou antes de pedir uma “ponderação entre os dramas”.

Eu sigo achando que trabalhador não pode pagar a conta de uma mudança mal executada. Clube pequeno precisa de proteção, atleta precisa de salário, funcionário precisa de emprego. Mas uma família que perdeu aluguel, comida e paz por causa de uma aposta também não pode ser tratada como detalhe de contrato.

A audiência discute a medida provisória que proibiu a exploração, a oferta e a publicidade das bets no Brasil. Clubes defendem uma adaptação mais longa para seus patrocínios; o governo sustenta que os impactos sociais, econômicos e de saúde tornam a proibição necessária.

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Enquanto a cabeleireira levava meu cabelo para a lavagem, eu fiquei pensando que “ponderar dramas” soa muito bonito até a hora em que se lembra de quem está do outro lado. Não é planilha. Não é índice. É gente tentando pagar conta depois de acreditar numa promessa de dinheiro fácil.

No fim, o representante colocou o Fluminense à disposição do STF. Eu deixo outra pergunta à disposição: quando uma família se endivida por bet, quem aparece para defender que a vida dela vale mais do que a receita de um patrocínio?