LUANA LISBOA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), foi celebrada nas redes sociais por políticos e apoiadores do governo Lula (PT). Parte deles associou o revés de Donald Trump à reeleição do presidente brasileiro, no fim de outubro.


No campo bolsonarista, alinhado a Trump, a maior parte dos principais nomes do movimento não se pronunciou sobre o resultado até esta quarta-feira (4). Os que o fizeram voltaram-se contra a comemoração da esquerda ou fizeram ressalvas ao alcance da derrota republicana.


Com a contagem dos votos ainda em andamento, os democratas obtiveram 228 das 435 cadeiras da Câmara, ante 139 dos republicanos, e garantiram ao menos 54 dos 100 assentos do Senado. Trump disse ao jornal The New York Times estar disposto a aceitar o resultado e a trabalhar com a oposição.

O pleito americano ocorre dias após a reeleição de Lula, em 25 de outubro, e a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário derrotado do petista, rumo aos EUA. Desde então, aliados do presidente têm sustentado nas redes que a vitória brasileira reverbera na esquerda de outros países.


A leitura encontrou eco fora do Brasil. O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, inscreveu a vitória democrata em um movimento mais amplo contra a extrema direita. "Aconteceu no Brasil. Acabou de acontecer nos Estados Unidos", afirmou.

Por aqui, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) publicou no X um vídeo em que classifica o resultado como uma vitória importantíssima do Partido Democrata e uma derrota gigantesca para a ideologia trumpista. Trump passa a dispor apenas da Presidência, comemorou.


A parlamentar sustenta que o revés republicano é melhor para o povo brasileiro, para o mundo e para a população americana. Recorre ainda a uma fala de Lula para dizer que a luta da esquerda se dá "em busca da primavera". A publicação já soma mais de 30 mil curtidas.


André Janones (Rede-MG) seguiu na mesma toada. À 0h12 desta quarta, o deputado escreveu que a vitória de Lula "tá inspirando o mundo inteiro", em post que reuniu ao menos 334 mil visualizações. À 1h04, publicou uma foto de Trump acompanhada da hashtag #TheBolsonarosEffect (o efeito Bolsonaro, em inglês), vista 535 mil vezes.


Horas antes, na noite de terça, Janones já havia compartilhado, com uma sequência de risadas, uma publicação em inglês que conclamava os americanos a votar como brasileiros. "Tamo indo longe com isso", escreveu.


A primeira-dama Janja aderiu às celebrações com uma imagem publicada nos stories do Instagram, em que a Estátua da Liberdade aparece abraçada ao Cristo Redentor, ambos fazendo o L, gesto que se tornou símbolo da campanha de Lula.

Foi essa publicação que mobilizou o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Às 13h14, ele reproduziu a imagem no X com o comentário "a falta de noção dessa mulher me surpreende ainda". O post alcançou 510 mil visualizações.


Entre os bolsonaristas que trataram do resultado, Paulo Figueiredo, que acompanhou Flávio e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro em reunião com Trump na Casa Branca em maio, destacou o desempenho republicano na Flórida.


No Instagram, Figueiredo celebrou que o estado se mantém republicano e que cadeiras importantes para o que chamou de "causa brasileira" foram preservadas. "Pelo menos isso", escreveu. Na Flórida, os republicanos venceram a disputa pelo Senado e a maior parte da bancada do estado na Câmara, ainda que por margens estreitas em algumas disputas. Em 2024, Trump havia vencido ali por mais de 13 pontos percentuais.


Carla Zambelli adotou outro tom. A ex-deputada compartilhou no Instagram um vídeo de Ivan Kleber Fonseca, correspondente da Revista Oeste em Londres, acompanhado de um recado à esquerda. "Não comemorem tão cedo, esquerdistas. Não vai ter extradição de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro", escreveu na legenda.


Na mesma publicação, Zambelli argumenta que o partido do presidente americano historicamente perde cadeiras nas eleições de meio de mandato e enumera três exceções: Franklin Roosevelt em 1934, Bill Clinton em 1998 e George W. Bush em 2002.


A própria ex-deputada é alvo de um processo de extradição. Zambelli vive na Itália, cuja Justiça analisa o segundo pedido feito pelo Brasil, relativo à perseguição armada de 2022, pela qual foi condenada pelo STF a cinco anos e três meses de prisão. Uma nova audiência está marcada para 24 de novembro. O primeiro pedido, referente à invasão do sistema do CNJ, foi rejeitado em maio.


Flávio, por sua vez, ingressou nos EUA com uma permissão humanitária de entrada, que lhe assegura ao menos um ano de permanência no país. O senador deixou o Brasil depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, cancelou seus passaportes e o proibiu de sair do país. Especialistas avaliam que a saída pode embasar a decretação de prisão preventiva, o que abriria caminho para um pedido de extradição antes mesmo de condenação definitiva.


Outros expoentes do bolsonarismo dedicaram as publicações desta quarta à disputa pela presidência do Senado, sem menção à eleição americana. O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) divulgou no YouTube sua fala em uma reunião com senadores em Brasília, da qual participou Carlos Bolsonaro (PL).


Carlos publicou no Instagram imagens do mesmo encontro, além de um vídeo sobre a visita que fez ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado. A deputada Bia Kicis (PL-DF), assim como Gayer, também saiu em defesa da candidatura de Rogério Marinho (PL-RN), sem tratar das midterms.


Radicado nos EUA desde 2025, Eduardo Bolsonaro tampouco comentou o resultado. No Instagram, limitou-se a registrar que participou na terça de "uma das maiores audiências americanas" que acompanharam a apuração, o PBD Podcast, do empresário Patrick Bet-David. Não era sua estreia no programa, ao qual havia comparecido em maio de 2024, ao lado de Nikolas, Gayer e Figueiredo.


Eduardo teve o mandato cassado em dezembro de 2025 e foi condenado pelo STF em junho deste ano por coação, em razão de sua atuação nos EUA para tentar interferir no processo da trama golpista.