Após ficar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da disputa pela Presidência da República por mais de 2 milhões de votos, Lula (PT) promoveu mudanças claras na campanha.
Na comunicação pelas redes sociais, passou a utilizar mais vídeos selfie, sem muita produção, a exemplo do que tem feito o rival. Em termos de pautas políticas, subiu o tom na questão da segurança pública, defendendo inclusive a redução da maioridade penal para crimes hediondos.
O tempo para que as alterações possam surtir efeito, porém, é curto. E, ao olhar para outros países nos quais a esquerda venceu eleições recentes ou tem demonstrado crescimento, cientistas políticos sugerem que o petista pode ter deixado escapar algumas tendências úteis à conjuntura brasileira.
O sucesso de Claudia Sheinbaum no México
Claudia Sheinbaum venceu as eleições gerais do México em 2024, sucedendo a Andrés Manuel López Obrador. Além de herdar na campanha a alta aprovação deixada pelo antecessor, ela tinha um trunfo importante: a melhoria da segurança pública na Cidade do México.
Sheinbaum governou a capital entre 2018 e 2023 e apostou no investimento em inteligência e cooperação policial. Entre dezembro de 2018 e março de 2022, o número de homicídios na metrópole caiu 49% segundo o Instituto Nacional de Estadística y Geografía (Inegi).
Nesse contexto, o professor Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou o papel da segurança pública na ascensão da presidente mexicana e na sua popularidade, que atingiu 70% em setembro, de acordo com o jornal El Financiero.
"No México, o governo federal é responsabilizado pela segurança, mas consegue responder na ponta da linha. Ela (Sheinbaum) conseguiu fazer uma boa política de segurança para a Cidade do México e depois replicá-la no país. Diz que investiu muito em inteligência, prevenção de crimes e algumas operações mais duras", explicou o cientista político.
Contudo, a ressalva feita por Neves sobre as diferenças nas estruturas policiais do México e do Brasil é importante.
Em 2019, López Obrador criou a Guarda Nacional, tendo o combate ao narcotráfico como uma das principais motivações. A instituição comandada pela Secretaria de Defesa Nacional (SEDENA) é militarizada e realiza policiamento ostensivo nacionalmente.
No Brasil, a segurança é vista como um ponto fraco da gestão petista, mas a Polícia Federal tem uma atuação mais restrita, focada em investigação de crimes específicos.
Nesse cenário, a segurança no dia a dia da população depende predominantemente da Polícia Civil e da Polícia Militar, ambas sob ordens dos governos estaduais.
Frente Ampla uruguaia mostra força e diálogo para além do próprio nome
Lula venceu o pleito de 2022 sob o discurso de mobilizar uma frente ampla brasileira contra a reeleição de Jair Bolsonaro. Trouxe Geraldo Alckmin (PSD), um adversário de outros tempos, para o posto de vice-presidente.
À época, o veterano também angariou apoio de Simone Tebet (PSD), que concorreu à Presidência pelo MDB. Ela endossou a candidatura petista no segundo turno e, posteriormente, ocupou o cargo de Ministra do Planejamento e Orçamento por mais de três anos.
Ainda assim, na visão de Leandro Consentino, professor do Insper e cientista político, faltou ao presidente brasileiro investir efetivamente na participação de mais partidos durante sua administração.
Ele utilizou a vitória de Yamandú Orsi nas eleições do Uruguai, em 2024, para destacar a força do discurso de frente ampla como estratégia de campanha.
"O Uruguai pode ser um caso importante para olhar no que diz respeito a formar uma frente ampla de verdade. Acho que o Lula pecou muito em acenar com isso em 2022 e não cumprir essa promessa de um governo de frente ampla", afirmou Consentino.
Segundo o especialista, Orsi - filiado ao partido Frente Ampla - tirou do discurso e colocou em prática a ideia que dá nome à legenda. Na sua visão, porém, Lula não consegue replicar a tática por não ter entregado o que se esperava no atual mandato
"Acho que o Yamandú fez de forma efetiva no Uruguai esse movimento que o Lula poderia ter construído. E aí, se ele (Lula) construísse isso, estaria numa situação muito mais confortável do que está hoje", explicou.
As novas lideranças de esquerda nos EUA
Nos Estados Unidos, enquanto a aprovação do presidente Donald Trump atinge mínimas históricas, novos rostos ganham popularidade na oposição. São os casos, por exemplo, de Alexandria Ocasio-Cortez (parlamentar da Câmara dos Representantes por Nova Iorque), Josh Shapiro (governador da Pensilvânia) e Zohran Mamdani (prefeito de Nova Iorque).
Para Neves, a ascensão dessas figuras do Partido Democrata, especialmente as mais jovens como Cortez e Mamdani, está intimamente ligada à renovação do grupo político.
Frutos de outra geração, esses personagens estariam ligados a ideias e formas de comunicação mais modernas em relação a democratas veteranos que, assim como o lulopetismo, esbarrariam em valores e soluções de outros tempos.
"O PT tem dificuldade de lidar com essa nova economia digital, por exemplo. Eles não conseguem oferecer uma solução trabalhista que encaixe o motorista de Uber e o garoto do iFood. Esse pessoal não quer uma política nos moldes da CLT, pensada no contexto de operários... Acho que essa mudança de geração nos EUA tem mais a ver com isso, com a leitura de um novo cenário internacional, entendimento de novas alianças, novas dinâmicas", opinou o professor da FGV.
O panorama é positivo, mas a safra emergente de democratas ainda precisa se provar. Em novembro ocorrem as midterms, eleições de meio de mandato no país, dando ao grupo a oportunidade de tirar do Partido Republicano o controle sobre o Senado e a Câmara.
Estadão Conteúdo.