FOLHAPRESS
Empresas e governos em todo o planeta correram nesta quinta-feira (22) para corrigir falhas críticas na linguagem de programação PHP, utilizada em diversos sites. No Brasil, ao menos três tribunais federais suspenderam o acesso externo a sistemas como medida de segurança.
Uma empresa de segurança cibernética relatou milhões de tentativas de invasão ao redor do mundo após a divulgação das vulnerabilidades.
A mobilização ocorreu depois que governos da Europa e de outras regiões tiraram sites do ar por precaução na quarta-feira (21), enquanto operadores se apressavam para proteger sistemas que utilizam o software. Atualizações foram divulgadas para corrigir os defeitos.
No Brasil, a vulnerabilidade levou à indisponibilidade do SEI (Sistema Eletrônico de Informações), utilizado por órgãos públicos para gerir documentos e processos administrativos.
"A indisponibilidade temporária do serviço está relacionada a uma vulnerabilidade recente identificada no próprio PHP. Como consequência, qualquer aplicação que dependa e seja executada em ambiente/servidor PHP é potencialmente afetada por essa fragilidade", disse a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) em nota. A agência não informou uma previsão para a retomada do serviço.
Na quarta, o Centro Integrado de Segurança Cibernética do Governo Digital emitiu um alerta para todos os órgãos que usam o PHP. O comunicado recomendou a atualização imediata dos sistemas e, nos casos em que isso não for possível, a restrição ao acesso.
O TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) suspendeu o acesso externo ao SEI na quarta-feira, sem sinalizar quando a situação será normalizada. "A medida tem caráter preventivo e visa resguardar a segurança do sistema e a integridade das informações institucionais, até que as vulnerabilidades identificadas sejam devidamente avaliadas e corrigidas", afirmou o TRF1.
O TRF-6 (Tribunal Regional Federal da 6ª Região) também bloqueou o acesso ao sistema e chegou a suspender o expediente na quarta. O trabalho retomou nesta quinta.
Já o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) informou que suspendeu o acesso ao sistema na quarta por medida de segurança.
Em nota, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos disse que os sites do governo federal e a plataforma Gov.BR não foram afetados.
As interrupções emergenciais de serviços bancários, aéreos, ferroviários, tributários e governamentais, de Tóquio a Helsinque, mostraram o quanto os sistemas públicos e corporativos dependem do software e como é difícil corrigir rapidamente essas falhas depois que elas se tornam públicas.
"Foi um dia longo e uma noite longa, eu sei, para todo o pessoal de TI e segurança… Fazia muito, muito tempo que eu não via nada parecido", desabafou o CEO da Microsoft, Satya Nadella, em um evento da empresa em Colônia, na Alemanha, nesta quinta-feira.
Ele afirmou que o episódio ressaltou a importância de desenvolver sistemas digitais cuja manutenção possa ser feita com segurança.
Os desenvolvedores do PHP lançaram correções urgentes na quarta-feira para vulnerabilidades que permaneceram ocultas no software por anos, até serem descobertas com o uso de IA, e recomendaram aos usuários que "atualizassem imediatamente".
"Os detalhes dessas falhas se tornaram públicos antes que as correções estivessem prontas, e ataques vêm sendo relatados desde então", informou Madeline Lawrence, cofundadora da empresa belga de segurança cibernética Aikido Security.
"Assim, as empresas estão correndo para se atualizar antes dos invasores, que podem usar IA para explorar essas falhas. Essa é toda a corrida", declarou Lawrence.
Enquanto empresas e governos aplicavam correções e suspendiam sites por precaução, o número de tentativas de invasão saltou para a casa dos milhões, segundo a empresa de serviços em nuvem Cloudflare.
"Nas 10 horas anteriores ao anúncio público, observamos milhares de tentativas de exploração da falha em toda a rede", afirmou o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, em post no X nessa quarta-feira. "Esse número saltou para dezenas de milhares nos 45 minutos após o anúncio, centenas de milhares em duas horas e, agora, milhões."
DO JAPÃO À FINLÂNDIA
Empresas japonesas, entre elas a corretora Nomura, o banco Mitsubishi UFJ Financial Group, a companhia aérea ANA e a East Japan Railway comunicaram nesta quinta-feira que estavam suspendendo temporariamente alguns serviços de internet como parte de medidas emergenciais.
A seguradora Tokio Marine Holdings informou ter suspendido o site de uma empresa do grupo. O Ministério das Finanças e a Agência Meteorológica do Japão suspenderam parcialmente serviços online para implementar medidas de segurança, enquanto a Agência Tributária Nacional japonesa retirou temporariamente seu serviço do ar.
As suspensões preventivas ressaltam a crescente preocupação com a segurança cibernética no Japão, que registrou mais incidentes cibernéticos nos primeiros nove meses do ano do que em todo o ano passado, segundo dados da TrendAI.
O grupo francês de telecomunicações Orange informou ter suspendido temporariamente, por precaução, o acesso a determinados sites e aplicativos baseados em PHP em várias subsidiárias. Na quarta, o governo derrubou vários sites governamentais como prevenção.
A Tencent Cloud, uma das maiores provedoras de computação em nuvem da China, recomendou aos clientes que instalassem versões atualizadas do PHP, mas não chegou a pedir a suspensão generalizada de sites.
A Valtori, provedora estatal de serviços de TI da Finlândia, informou que continuou instalando correções de segurança do PHP durante a noite e que estava retirando gradualmente os bloqueios preventivos de serviços, após ter interrompido os serviços públicos do governo na internet no dia anterior.
"A restauração dos serviços pode levar dias ou até semanas, pois, além das atualizações, os sistemas precisam ser cuidadosamente testados", afirmou o diretor-geral da Valtori, Hannu Naumanen. A Valtori afirmou que as interrupções não foram causadas pela exploração das vulnerabilidades nem por uma invasão cibernética e que não tinha conhecimento de nenhuma exploração ativa das falhas.
Vários governos asiáticos determinaram nesta quinta-feira a realização de inspeções de segurança cibernética relacionadas às vulnerabilidades do PHP.
O Ministério da Indústria da China recomendou que organizações e usuários inspecionassem imediatamente seus sistemas e fizessem a atualização para a versão segura mais recente do PHP. Também recomendou reforçar o monitoramento de segurança cibernética e alterar contas, senhas e chaves quando necessário.
A Coreia do Sul elevou o nível de alerta de segurança cibernética para o setor privado e ativou medidas de resposta emergencial, citando preocupações com o aumento do risco de ataques de hackers.
O QUE É O PHP?
Criada no início dos anos 1990, a linguagem PHP sigla que originalmente significava Personal Home Page sustenta uma parcela expressiva dos sites públicos e é usada em plataformas como WordPress, Drupal, Moodle, Joomla e Magento. Por isso, qualquer vulnerabilidade crítica pode ter consequências de grande alcance.
"Todos os servidores que usam qualquer versão do PHP lançada nos últimos 20 anos estarão vulneráveis", disse Tiffany Farriss, presidente-executiva interina da Drupal Association. "Esse problema afeta a maior parte da internet."
Segundo dados da Censys, empresa de inteligência sobre a internet, cerca de 1,5 milhão de um total de 2,6 milhões de servidores identificados informam usar versões do PHP para as quais ainda não há correção disponível.
Agências de segurança cibernética de vários países recomendaram que usuários do PHP atualizem seus sistemas imediatamente ou tirem os sites do ar até a instalação das correções.
No Brasil, o CTIR.Gov (Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo) emitiu um alerta nesta quarta.
"[O centro] recomenda que as instituições identifiquem os sistemas, servidores, aplicações e serviços que utilizam PHP, verifiquem as versões instaladas e apliquem imediatamente as atualizações de segurança disponibilizadas pelo fornecedor, observando a compatibilidade e os procedimentos de mudança de cada ambiente".
Jornal de Brasília
Falha faz governos e tribunais no Brasil suspenderem sistemas em meio a milhões de tentativas de invasão
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