O Flamengo tem todo o direito de cobrar explicações sobre o acordo em negociação entre Corinthians e Caixa Econômica Federal. Mas, antes de levantar a bandeira do dinheiro público, seria conveniente consultar a própria história. Durante 25 anos, o clube estampou marcas da Petrobras na camisa. Mais recentemente, construiu uma parceria com o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. A preocupação com recursos de instituições públicas precisa valer também quando o beneficiário veste vermelho e preto.
No fim de semana, a coluna Futebol Etc consultou uma altíssima fonte da Caixa e confirmou que as negociações com o Corinthians estavam avançadas, próximas de uma conclusão. A operação em discussão prevê a cessão dos direitos de nome do estádio e outras contrapartidas comerciais para liquidar uma dívida na casa dos R$ 640 milhões. Pode ser um bom negócio para ambos: o Corinthians resolve um passivo pesado, e o banco recebe ativos comerciais associados a uma das maiores torcidas do país. Isso, naturalmente, depende dos valores, dos prazos e das garantias do contrato.
Movimento contra o Timão
Agora o Flamengo lidera uma articulação contrária ao entendimento, com apoio do Atlético-MG. Questionar uma operação desse porte é legítimo. O que exige cuidado é transformar a natureza pública do banco em prova automática de favorecimento. A negociação envolve contrapartidas; cabe demonstrar se elas remuneram adequadamente a Caixa. Esse deveria ser o centro da discussão.
O incômodo rubro-negro, porém, aparece também em outras frentes. O presidente Bap anunciou que recorreria à Justiça contra a compra da SAF do Vasco por Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira, alegando conflito de interesses. Depois, o Flamengo apoiou formalmente a investigação da operação. Há questões que merecem análise dos órgãos competentes, mas a insistência em fiscalizar os caminhos do rival alimenta uma pergunta: onde termina a defesa das regras e começa a preocupação com um concorrente mais forte?
A contradição fica mais evidente quando se volta à camisa do Flamengo. Se a tese é que uma instituição pública, ao fechar negócio com um clube, deveria oferecer o mesmo a todos, por que esse raciocínio não valia para a Petrobras? E por que não valeria para o BRB, cujo patrocínio ao próprio Flamengo chegou a ser alvo de uma decisão provisória de suspensão dos pagamentos em maio? Os negócios são diferentes e precisam ser examinados individualmente. A cobrança de transparência, contudo, deve ser a mesma.
O Flamengo construiu uma potência esportiva e comercial. Não precisa diminuir esse mérito com uma postura que transmite desconforto sempre que um adversário procura uma saída para se reorganizar. Quem pretende ocupar o lugar de uma espécie de Real Madrid da América do Sul deveria confiar mais na própria força. Fiscalizar é legítimo. Querer exclusividade nas oportunidades é outra história.