JULIANA ARREGUY E ARTHUR GUIMARÃES DE OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O modo alerta da esquerda após Lula (PT) terminar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no 1º turno da eleição impulsionou nos últimos dias uma sequência de atos de rua pelo país, uma nova atuação da tropa digital e iniciativas independentes para tentar reverter a vantagem bolsonarista nas urnas.

Lula recrutou influenciadores de esquerda, entre eles deputados federais e estaduais eleitos, promoveu trocas no núcleo de sua campanha, aderiu a manifestações, endureceu o discurso de segurança pública, fez acenos a grupos que o rejeitam e estreou, aos 80 anos, vídeos em formato de selfie mesmo sendo refratário ao uso de smartphones.

Embora tenha demorado cinco dias para retomar as agendas de rua, o presidente procurou participar de atividades com a militância ao longo do final de semana. Surpreendendo até mesmo aliados, decidiu, com menos de 12 horas de antecedência, participar do ato na avenida Paulista no domingo (11).

Mesmo sem estimativa oficial de público, a manifestação, que ocupou 12 quarteirões, na maior parte dos 2,8 km da avenida, indicou ser a maior da esquerda no local desde protestos contra o governo Jair Bolsonaro (PL).

Além de São Paulo, outras 76 cidades brasileiras receberam atos, manifestações, caminhadas, carreatas, bandeiraços e panfletagens em defesa da campanha de Lula.

Entre petistas e apoiadores do presidente, há pânico e urgência nos atos e decisões: nunca um candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu terminar as eleições vitorioso.

Nos dias que seguiram a votação, o PT realizou uma sequência de reuniões para definir os próximos passos.

Jovens eleitos deputados federais, como Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP), Jones Manoel (PSOL-PE), Luna Zarattini (PT-SP) e Renato Freitas (PT-PR) foram encarregados de rodar o país, elaborar estratégias para as redes sociais e auxiliar com as propagandas eleitorais.

O grupo também tem feito a ponte com estudantes secundaristas e universitários, que estão na liderança de manifestações favoráveis a Lula.

O próprio ato de domingo da avenida Paulista, apesar de incorporado pela campanha petista, inicialmente seria promovido por grupos estudantis junto de movimentos sociais.

Na Paulista, Lula esteve acompanhado dos governadores petistas Rafael Fonteles, do Piauí, Jerônimo Rodrigues, da Bahia, e Elmano de Freitas, do Ceará. Os três foram reeleitos em seus respectivos estados ganharam destaque na campanha do presidente neste segundo turno, após trocas feitas no núcleo da campanha presidencial.

O próprio Lula manifestou insatisfação com trabalho feito no primeiro turno ("foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989"), e decidiu assumir o controle de mais atividades, o que inclui aprovar roteiros de caminhadas e assistir previamente aos programas eleitorais.

A outro trio de aliados, que inclui o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), o ex-ministro Fernando Haddad (PT) e o ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL), o presidente conferiu novas missões.

Alckmin rodará mais o país para tentar atrair eleitores que rejeitam Lula, mas que também não desejam votar em Flávio. Haddad, derrotado ao Governo de São Paulo, assumiu a frente da coordenação petista no estado. Boulos fará um giro pelas regiões Sul e Sudeste e pela periferia da capital paulista.

O presidente quer ampliar a votação em estados onde já possui boa base de eleitores, como Bahia, Ceará e Pernambuco, visitar locais onde houve maior abstenção ou nos quais a diferença de votos para Flávio foi bem próxima.

O petista recalibrou os discursos sobre segurança pública ("para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão") e a crise envolvendo o Banco Master e o STF (Supremo Tribunal Federal). Nos novos programas eleitorais, têm ampliado os ataques a Flávio.

Além disso, Lula fez anúncios para perdoar dívidas de microempreendedores e busca aproximação com caminhoneiros, dois grupos que rejeitam sua candidatura.
Foi determinado aos integrantes da campanha que se engajem em ações nas ruas diariamente.

EXTRAOFICIAL

Enquanto o núcleo duro do PT se reunia para decidir os próximos passos, outras iniciativas a favor do presidente foram colocadas em prática, de forma independente, e com teor também de urgência nas redes sociais.

O deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) passou a concentrar esforços no grupo "Exército do Lula" no WhatsApp, que em uma semana ultrapassou 4 milhões de seguidores e encampou uma disputa com a campanha de Flávio e com o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, para se manter no ar.

Kassio mandou censurar o canal sem ter indícios ou provas de propagação de fake news, o que havia sido apontado pela campanha de Flávio.

À Folha de S.Paulo Janones disse que tomou a iniciativa por conta própria para tentar aplicar, com a militância, estratégias já difundidas pela direita nas redes sociais. No entanto, após a derrubada pelo presidente do TSE, o canal foi registrado na Justiça Eleitoral como parte da campanha de Lula.

Um grupo de pessoas da área da tecnologia chamado "Comunidade Tech Contra Bolsonaro" desenvolveu a página "Radar da Virada", com ferramentas de monitoramento de tendências e menções ao senador e ao petista nas redes. Segundo os responsáveis, a iniciativa é voluntária, sem vínculo com campanhas.

Influenciadores e produtores de conteúdos têm feito vídeos, cards e posts sobre como virar votos e atrair às urnas eleitores que não compareceram no 1º turno.

Fã-clubes de artistas como Anitta e Luiza Sonza, e de grupos como o sul-coreano BTS, também aderiram à mobilização em prol do petista. O "Fandoms com Lula", como ficou conhecido o movimento nas redes, já teria reunido mais de 1.000 fã-clubes brasileiros, segundo a porta-voz Sabrina Oliveira.

Em outra frente, personalidades da sociedade civil manifestaram preocupação com o avanço da direita em uma carta aberta em defesa da democracia. O documento foi articulado pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr., um dos autores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), e pelo procurador Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção.