VICTOR LACOMBE
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, usou seu discurso na Assembleia Geral da ONU neste sábado (26) para condenar as ações militares dos Estados Unidos na Venezuela e no Irã --enquanto, ao mesmo tempo, acusou a Europa de sabotar um acordo de paz na Ucrânia, país invadido por Moscou.
"Em contradição a todas as normas, incluindo as morais, os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro, junto da esposa [Cilia Flores]. Eles estão detidos hoje em uma prisão americana, sem julgamento, apesar da imunidade garantida a chefes de Estado pela lei internacional", disse Lavrov.
O julgamento de Maduro, que já possui um advogado, está marcado para começar em junho de 2027. Ele é acusado pelos EUA de facilitar o tráfico de drogas, entre outros crimes. "Exigimos sua libertação imediata", afirmou Lavrov.
O chanceler russo prosseguiu: "É inaceitável que a força tenha sido usada para matar Ali Khamenei e membros da sua família", em referência ao ex-líder supremo do Irã, país aliado de Moscou. "A agressão israelo-americana atinge a infraestrutura civil do Irã, incluindo a nuclear", afirmou --a Rússia também ataca infraestrutura civil ucraniana com frequência, de acordo com as Nações Unidas.
Ao mesmo tempo, Lavrov afirmou que a Rússia está disposta a cooperar para "estabilizar" o estreito de Hormuz, bloqueado por Teerã desde o início da guerra lançada por Donald Trump e Binyamin Netanyahu.
O ministro de Vladimir Putin, o mais longevo chanceler de seu país desde o fim da União Soviética, tentou pintar uma imagem de uma Rússia cercada de aliados e parceiros --e não isolada do sistema financeiro internacional e dos mercados europeus, consequência das sanções impostas contra Moscou pela União Europeia.
"Os países do sul e do leste global vem, cada vez, assumindo sua segurança por conta própria, sempre em respeito ao direito internacional", disse Lavrov. "Nossos muitos amigos, seja no Brics, seja na Organização de Cooperação de Xangai, são prova disso."
Sobre a guerra da Ucrânia, que já dura mais tempo do que a participação da URSS na Segunda Guerra Mundial, Lavrov disse que "ações irresponsáveis" vêm sendo tomadas por aliados de Kiev, em referência a entrega de armas utilizadas contra a Rússia no conflito.
"Em nome de uma suposta contenção da Rússia, os EUA destruíram a segurança europeia e criaram um regime russofóbico em Kiev. Entendendo como isso é fútil, a Europa faz de tudo para sabotar conversas de paz nas quais o governo Trump tem interesse", prosseguiu.
Na verdade, em todas as tentativas de negociação, foi Moscou quem não abriu mão de suas pesadas demandas iniciais --como o reconhecimento da anexação ilegal da Crimeia e de quatro províncias ucranianas, parte das quais ainda estão sob controle de Kiev.
"O Ocidente entope a Ucrânia de armas, ajudando-a a mirar civis e infraestrutura civil na Rússia. As aspirações [dos EUA e da Europa] de derrotar a Rússia no campo de batalha levam a um beco sem saída estratégico", disse Lavrov.
"Começamos a operação militar especial para proteger pessoas" nas regiões anexadas, afirmou o chanceler, repetindo um dos motivos dados por Putin para invadir o país vizinho, qual seja, o de que a minoria russa na Ucrânia estava em perigo. "Lutaremos até completarmos nossos objetivos. Ameaças à nossa segurança serão eliminadas e a paz voltará", concluiu Lavrov.
Pouco depois do discurso, o chanceler russo se encontrou com seu homólogo alemão, Johann Wadephul, em uma reunião que durou apenas 20 minutos. Foi o primeiro encontro em nível ministerial dos dois países desde a invasão do território ucraniano. A iniciativa partiu da Alemanha, informou o Kremlin.
Segundo a imprensa alemã, Wadephul teria pedido para a Rússia abandonar o "caminho perigoso da escalada contra a Alemanha, a Europa e a Otan". O episódio do drone com explosivos encontrado no aeroporto de Leipzig, em agosto, que Berlim credita aos serviços de inteligência russos, foi abordado no encontro.