Nikolas Ferreira (PL-MG) negou que tenha publicado, em 2014, uma frase sobre a Virgem Maria que voltou a circular nas redes: “Virgem Maria foi estuprada pelo Espírito Santo”. O deputado classificou o print como falso, disse que vai processar quem o divulgar e acusou adversários de explorar a religião para atingi-lo e a Flávio Bolsonaro.
A frase é explosiva justamente porque mexe com uma figura central da fé católica. Eu seguia pela Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, olhando as vitrines do Príncipe Real, e parei para ler a história direito: em campanha, um print solto não é prova definitiva, mas também não desaparece só porque alguém deu uma coletiva no próprio Instagram.
A postagem atribuída a Nikolas teria sido feita em uma conta antiga no X, então Twitter. O problema é que não há, até agora, um link original acessível, um arquivo independente ou metadados capazes de comprovar que a publicação existiu e foi escrita pelo deputado. É daí que nasce a confusão: a internet trata um recorte como sentença, enquanto a documentação pública não fecha essa conta.
Publicação que cita a frase sobre a Virgem Maria virou alvo de disputa nas redesO detalhe que incendiou ainda mais o caso foi a participação do Grok, inteligência artificial ligada a Elon Musk. Em abril de 2025, a ferramenta respondeu a usuários que o post era verdadeiro. Agora, porém, passou a afirmar que não existe registro original verificável e reconheceu que a resposta anterior pode ter sido equivocada. Ou seja: a própria IA que ajudou a espalhar certeza está, agora, sentada no banco da retratação.
Eu já estava quase na porta da A Cevicheria, com o sol de Lisboa batendo na calçada e a fome chegando sem pedir licença, quando pensei no tamanho desse enrosco. Não basta um robô responder com convicção para uma frase virar fato. Inteligência artificial não é cartório, meu amor. E muito menos testemunha ocular de um tuíte apagado há mais de uma década.
Grok mudou de posição sobre a autenticidade do post atribuído ao deputadoNikolas afirmou que a divulgação da frase faz parte de uma “monstruosidade” contra seu grupo político. Ele também criticou perfis de esquerda e disse que envolver a família de Jesus em uma disputa eleitoral seria um ataque à fé cristã. A fala ocorreu em meio à polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida e à decisão do ministro André Mendonça, do TSE, que mandou remover conteúdos falsos sobre uma suposta intenção de Flávio Bolsonaro de retirar o título de padroeira do Brasil.
O caso, portanto, tem duas camadas que não podem ser misturadas: Nikolas nega a autoria da frase, e não há confirmação independente de que o post seja verdadeiro. Ao mesmo tempo, o Grok já havia dito o contrário e ajudou a transformar o assunto em munição digital. É o retrato de uma campanha em que um print, uma IA e uma indignação bem editada podem fazer mais barulho do que uma prova.
Eu entrei no restaurante ainda com essa história na cabeça e deixei uma conclusão: se a frase é falsa, que apareça a prova da falsidade; se é verdadeira, que apareça o registro original. O que não dá é para usar a fé como granada e a inteligência artificial como quem joga o fósforo e finge que não viu a fumaça.
https://twitter.com/nikolas_dm/status/2103614969237717263