JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS


Em tempos de Donald Trump, guerras e uma competição inglória com a China, Ursula von der Leyen tem abusado do termo multilateralismo em suas postagens. Não foi diferente com Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nesta segunda-feira (26), a presidente da Comissão Europeia falou que "a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil".

Junto a uma foto de seu encontro com o presidente brasileiro, em janeiro, no Rio, às vésperas da assinatura do acordo União Europeia-Mercosul, Von der Leyen escreveu sobre "uma ordem global baseada em regras", outro pensamento que repete bastante.

Na última vez, em setembro, em discurso ao Parlamento Europeu, argumentava que Bruxelas sempre defenderia o "sistema baseado em regras", ainda que esse mesmo sistema apresentasse uma "fratura exposta" neste momento.

Ela não disse isso, mas ficou claro que tal fratura estava do outro lado do Atlântico, a agressiva política tarifária de Trump, assim como uma das soluções, Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá. Foi nesse discurso que Von der Leyen convidou formalmente o vizinho dos EUA a se tornar um membro associado da União Europeia.

Lula é outro bastião da mesma estratégia. Mitigar os exageros retóricos e práticos de Trump foi o que moveu Bruxelas em direção ao Mercosul após duas décadas de negociações infrutíferas. E foi no líder brasileiro que Von der Leyen se apoiou para chegar à assinatura, a despeito da oposição de França, Polônia, Irlanda e outros países de agricultura forte na UE.

A despeito de todas as ressalvas possíveis, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, o presidente brasileiro também é a face da proteção da floresta na Europa.

A impressão é corroborada pelos números de desmatamento, os menores da história, um dos itens mais mencionados pela imprensa do continente após a lembrança da tentativa de golpe de Jair Bolsonaro e sua condenação à prisão.

Von der Leyen, em sua mensagem, reiterou as "fortes ambições por nosso clima", item também citado pelo primeiro-ministro holandês, Rob Jetten.

A Holanda, nesta segunda-feira, anunciou a intenção de investir US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) no TFFF, fundo de florestas lançado por Lula na Assembleia Geral da ONU, no ano passado.

O projeto, que provavelmente naufragaria em um governo Flávio Bolsonaro (PL), é uma das tantas bandeiras ambientais brasileiras que fazem mais sucesso no exterior do que em casa. Não está claro se o anúncio do fundo estava condicionado à reeleição de Lula.

A defesa da democracia também esteve presente nas congratulações de líderes europeus. De forma sutil, como a menção do primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, sobre "a maior democracia da América Latina" ter escolhido Lula, ou categórica, como a mensagem de seu colega espanhol, Pedro Sánchez.

Em entrevista ao site Politico, Jorge Martín Frías, eurodeputado do Vox, partido de ultradireita espanhol, afirmou que as circunstâncias da eleição brasileira eram muito diferentes das do pleito espanhol, marcado para novembro.

Ponderou, no entanto, que a sigla busca inspiração nas bem-sucedidas campanhas de Javier Milei, na Argentina, e de José Antonio Kast, no Chile.

O presidente francês, Emmanuel Macron, também envolto em protestos e diante de um complexo período eleitoral --em que seu legado é dissecado por todo o espectro político--, falou dos "desafios do nosso tempo". "Vamos fortalecer nossa parceria estratégica e dar vida à amizade entre nossos dois países em prol de um mundo mais justo", escreveu.

A vitória de Lula, descrita como surpreendente, entre outros adjetivos, pela imprensa europeia, revigora de certa forma sua imagem internacional, que ele tanto cultiva, em um momento geopolítico divisivo no planeta.

Como neste terceiro mandato, porém, ela não será suficiente para aplacar os desafios da política doméstica que o presidente brasileiro deve enfrentar, notadamente um Congresso hostil, em que termos como multilateralismo passam ao largo.