CLAUDINEI QUEIROZ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O treinador de jiu-jítsu Bruno Leonardo Reis de Souza, 42, conhecido como Bruno Formiga, é acusado de assédio sexual por duas alunas de sua academia, a Escola Bruno Formiga de Jiu-Jítsu, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
A outra, uma adolescente, além da denúncia de assédio contra Formiga, também acusa de estupro o lutador Cauã Magalhães Amaral. Em abril, a Justiça concedeu medida protetiva em favor dela contra o lutador e o treinador.
O processo corre em segredo de Justiça e está na fase de investigação policial. A Folha teve acesso a boletins de ocorrência com os detalhes das acusações. Procurada por email na terça-feira (29) e quarta-feira (30), a Polícia Civil não respondeu.
O caso veio à tona na última semana de agosto, quando a aluna de 17 anos usou as redes sociais para denunciar Formiga e Amaral, a quem ela atribui a função de instrutor. Eles teriam cometido os abusos quando ela tinha 16 anos.
A defesa dos dois acusados, feita pelo advogado Pedro Santiago, nega as acusações e critica a exposição pública, afirmando que os fatos estão sendo distorcidos nas redes sociais e na mídia.
O ponto em comum no depoimento das duas ex-alunas é a forma como Formiga supostamente as tratava durante os treinamentos em sua academia.
As denúncias dizem que ele simulava movimentos técnicos de jiu-jítsu, como imobilizações, para encostar o órgão genital no corpo das alunas.
Também há denúncias por ele supostamente lamber a orelha e os seios das alunas, encostar os genitais no rosto e bater nas nádegas delas com a faixa diante de outros alunos. A suposta vítima de 26 anos afirma que ele chegou a levantar a blusa dela em uma confraternização, deixando seus seios à mostra.
Ela afirmou ter sido estuprada por Formiga em uma viagem para São Paulo, em maio de 2025, quando a equipe ficou hospedada em uma casa alugada na zona sul.
Contou à polícia que teria consumido balas de maconha e bebida alcoólica levados pelo treinador. Quando foi se deitar, em estado de embriaguez, ele a teria estuprado. No outro dia, o treinador teria comprado uma pílula do dia seguinte para ela tomar.
Ainda segundo os depoimentos, quando reclamavam dos seus atos, ele dizia se tratar apenas de brincadeiras. Na insistência, afirmaram, ele passava a boicotá-las e descreditá-las na academia.
O medo de ser boicotada e retirada das competições é o que levou a aluna adolescente a suportar os casos de abuso, segundo ela afirmou à polícia.
Além das acusações contra Formiga, ela também denunciou o instrutor Amaral por estupro em duas ocasiões. Na primeira, em dezembro de 2025, ele supostamente a levou ao banheiro feminino da academia e a estuprou com a porta trancada. Um atleta teria testemunhado esse momento e, além de contar para o pai da menor, confirmou em depoimento à polícia.
Em janeiro deste ano, em uma viagem para um torneio em Portugal, o treinador teria determinado que a menor dormisse na mesma cama de Cauã em uma noite. Ela afirma ter sido coagida a manter relações sexuais com ele por medo de represálias.
O pai da adolescente disse à polícia que havia consentido com a viagem sob a promessa explícita de Bruno de que homens e mulheres ficariam em alojamentos separados. E que somente ficou sabendo do que aconteceu depois que a filha passou a ficar trancada em casa, recusando-se a ir à escola e com compulsão alimentar, o que a fez engordar 10 kg em três meses.
Após tratamento psicológico, ela contou o que aconteceu e os pais fizeram a denúncia na delegacia no início de fevereiro.
Em notas enviadas à Folha nas quais nega as acusações, o advogado Pedro Santiago afirma que as alunas realizaram vazamentos seletivos de informações que correm em segredo de Justiça, omitindo provas e depoimentos que favoreceriam os acusados no inquérito policial. A reportagem não teve acesso a esses documentos.
"Tal lamentável postura contribui para a formação, perante a opinião pública, de uma percepção distorcida e nebulosa dos fatos, acompanhada da condenação social antecipada de um indivíduo que, após seis meses de investigação, não foi indiciado pela autoridade policial, não foi denunciado pelo Ministério Público, não foi condenado pelo juízo criminal, em relação às imputações que vêm sendo divulgadas como se constituíssem verdades já estabelecidas", disse Santiago.
O defensor também afirmou que Cauã não é instrutor da academia, como está sendo tratado na acusação, mas sim um atleta. E que as relações sexuais que teve com a menor de idade teriam sido em comum acordo. Ele diz que testemunhas já depuseram na delegacia com essa versão dos fatos.
A família da adolescente pediu medidas protetivas contra Formiga e Amaral, que foram concedidas em abril pelo juiz João Zacharias de Sá, da 1ª Vara Especializada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, após manifestação favorável do Ministério Público.
A decisão foi baseada na Lei Henry Borel, segundo a qual não é necessária a comprovação do crime para a emissão das medidas. Basta a existência de uma situação de risco comunicada em uma acusação de violência contra a criança ou adolescente.
O juiz destacou no documento que a lei inverte o ônus probatório. Ou seja, o suposto agressor precisa comprovar que não houve a prática ou o risco de violência.
"Trata-se de medida de alcance estritamente protetivo, que, sob certo ângulo, também beneficia os próprios requeridos, ao afastar qualquer possibilidade de contato que pudesse ser interpretado como nova tentativa de influência, pressão ou intimidação sobre a adolescente, resguardando sua posição no curso das investigações", disse o magistrado.