O documentário Tudo é Tempo acompanha quatro eleitores de uma mesma seção eleitoral do Rio de Janeiro ao longo de 20 anos, entre 2002 e 2022, atravessando três eleições de Lula. Ao longo desse período, a câmera registra como o tempo transforma convicções, afetos, escolhas e a própria forma como os personagens enxergam o mundo. Dirigido por Marcos Guttmann, o longa passa às 21h, no Cine Brasília, dentro da Mostra Competitiva de Longas-Metragens da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Uma segunda exibição está marcada para terça-feira (15), às 10h, na Sala 2 do Cine Cultura Liberty Mall.
Com 30 anos de carreira, Guttmann assina direção, roteiro e produção do filme. Seu portfólio inclui o longa Maresia, vencedor de melhor direção no Cine Ceará, o documentário Guignard: mundo sem chão, e quatro curtas-metragens premiados em festivais como Montreal, Rotterdam, Locarno e Clermont-Ferrand.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, o diretor contou que a ideia do longa nasceu ainda em 2002, num momento que ele descreve como único. “A ideia surgiu de uma percepção de que vivíamos um momento único, muito especial entre o 1º e o 2º turno da eleição de 2002. A eleição do Lula era um acontecimento histórico e quis documentar como as mudanças daquele governo se refletiram na vida de pessoas comuns”, afirma Guttmann, que cita como referência o documentário russo Ana dos 6 aos 18, de Nikita Mikhalkov, que registrava a Perestroika repetindo as mesmas perguntas a cada aniversário de uma menina.
O processo de filmagem, no entanto, não foi contínuo. “Filmei cada personagem uma vez por ano de 2002 a 2006. Depois, interrompi as gravações, mas mantive contato com os personagens. Em 2022, quando Lula era novamente favorito nas eleições, voltei a gravar com os 4 e consegui financiamento para a pós-produção através do FSA Ancine e pré-licenciamento da EBC”, explica. Mesmo nos anos sem câmeras, a relação entre diretor e personagens não se interrompeu. “O documentário começou a fazer parte da vida dos personagens e muitas vezes eles me procuravam durante esse período sem gravar. Talvez um dos elementos mais preciosos desse filme tenha sido a confiança que obtive dos personagens ao longo do tempo”, diz.
O divisor de águas de 2018
Entre as mudanças registradas ao longo das duas décadas, o diretor destaca 2018 como um ponto de virada. “O ano de 2018 foi um claro divisor de águas. Conversei por telefone com todos os personagens, apesar de só ter conseguido entrevistar uma delas. Fiquei surpreso de como o fenômeno da extrema direita mudou a opinião de um personagem que antes era eleitor convicto do Lula e de outro personagem, que trabalhava com política”, relata. Guttmann conta que sua intenção inicial era registrar aquele momento sob um prisma político, mas que, ao revisitar o material em 2025, percebeu que a força do filme estava no amadurecimento e nas contradições de cada personagem, e na maneira como o tempo reconfigura convicções. A política, então, tornou-se pano de fundo da narrativa.
Com mais de 20 anos de material bruto, o processo de edição também exigiu decisões difíceis. O cineasta credita parte do resultado final à equipe de montagem, formada por Arthur Frazão, Rita Carvana e Marx Braga, e conta que testou diferentes caminhos antes de optar pela estrutura cronológica, descartando a ideia de justapor imagens do passado e do presente de cada personagem, o que revelaria de forma direta e explícita as mudanças e contradições de cada um. “Montar é um exercício de 'kill your darlings', ou 'kill your babies', como dizem alguns montadores, diretores e escritores. Montar um filme que foi filmado por mais de 20 anos foi muito desafiador, mas, simultaneamente, eu tinha algum distanciamento do material”, finalizou.
SERVIÇO
59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
De 11 a 19 de setembro
Cine Brasília e outros espaços culturais do DF
Ingressos pelo app Ingresso.com e na bilheteria do Cine Brasília (demais sessões, entrada gratuita conforme lotação)