IGOR GIELOW
FOLHAPRESS

Os governos da Turquia e do Paquistão concordaram nesta segunda-feira (5) em enviar rapidamente forças militares para auxiliar a Arábia Saudita, que vive um estado de guerra com os rebeldes pró-Irã do vizinho Iêmen.

É a primeira medida concreta tomada pelos aliados no chamado Acordo de Meca, um pacto de assistência mútua militar assinado em agosto. Inédito no Oriente Médio, o arranjo que promete mudar a arquitetura de segurança da região agora será posto à prova.

A decisão foi tomada em uma reunião de chanceleres dos países em Istambul. Não foi divulgado nenhum detalhe sobre como será o apoio, apenas que ele leva em conta o contexto da ameaça houthi.

Os paquistaneses já têm 8.000 soldados e armamentos como caças JF-17 e sistemas antiaéreos na base Rei Abdulaziz, perto do Golfo Pérsico. Eles fazem parte de um pacto à parte com Riad, assinado no ano passado, e até aqui não haviam sido mobilizados devido ao agravamento da guerra no Iêmen.

Desde domingo (4), os sauditas apoiam com pesados ataques aéreos uma ofensiva do governo reconhecido internacionalmente do Iêmen, expulso em 2014 da capital do país, Sanaa, pelos houthis apoiados por Teerã.

A marcha chegou nesta segunda-feira a pontos estratégicos para retomar o controle do estreito que liga o sul do mar Vermelho ao oceano Índico. Segundo o governo, foram retomados pontos centrais das cidades de Mocha e Dhubab, que miram as águas do estratégico estreito de Bab el-Mandeb.

As áreas haviam sido tomadas pelos houthis no mês passado, visando implementar um bloqueio naval eficaz contra o porto de Yanbu, que escoa boa parte do petróleo saudita, driblando o fechamento do estreito de Hormuz, do outro lado da Península Arábica, pelo impasse entre Irã e Estados Unidos.

Os rebeldes negaram ter perdido o controle, mas admitem que há combates intensos na região. Há ataques em curso também contra o importante porto de Hodeidah, que já estava havia mais tempos nas mãos houthis, tendo sido alvo de americanos e israelenses antes.

O contra-ataque veio no domingo após uma série de reveses para os sauditas, incluindo a interrupção por semanas de seu principal oleoduto, que voltou a ser atacado pelos houthis no mesmo dia, mas está funcionando.

Os disparos de mísseis e drones contra bases, cidades e instalações petrolíferas sauditas são diários. É possível que a força multinacional se incumba de reforçar a proteção local, sem se envolver diretamente no Iêmen —mesmo Riad busca concentrar seu suporte ao governo com armas e logística, além do poderio aéreo.

Seja como for, é simbólico o apoio dentro do Acordo de Meca, que já mira atrair vizinhos regionais como o Egito e a Síria, de olho numa aliança para demover ações do Irã, mas principalmente para tentar fazer frente ao poderio de Israel.

Agora, a intensidade dos bombardeios sauditas aumentou e chegou também a Sanaa, centro do governo rebelde. Houve ataques aéreos a bairros da cidade, e o governo diz que está marchando por três frentes contra a capital.

Já mais ao sul, perto de Taiz, são os houthis que avançam segundo os relatos disponíveis, visando a tomada de regiões montanhosas vitais para o fluxo de suprimentos militares do governo.

A fluidez no campo de batalha não se via desde 2022, quando a guerra civil no país foi congelada em linhas estáveis, com os houthis dominando o oeste iemenita. Outro grupo rebelde rival controlava o sul da nação, mas neste ano o governo o subjugou, estabelecendo-se no importante porto de Áden.

O rápido avanço dos houthis no mês passado ocorreu após um bloqueio aéreo sobre Sanaa ser imposto em julho, reabrindo os combates. O preço do petróleo subiu abruptamente a partir disso.

Até então, os rebeldes participavam do conflito no Oriente Médio apoiando o Irã com ataques a Israel, mas não haviam agido no mar Vermelho como fizeram no período de 2023 a 2025, quando lutaram ao lado dos terroristas do Hamas contra o Estado judeu na esteira do 7 de Outubro.

Com as ofensivas do mês passado, os houthis controlaram rapidamente a costa do país no mar Vermelho, objeto agora de nova disputa.

Para o Irã, o movimento é útil por dar mais uma ficha de barganha contra os americanos no conflito iniciado por Donald Trump em fevereiro, mas a agenda houthi é própria: eles querem controlar o país, e temem o esvaziamento do apoio iraniano em caso de paz com os EUA.

Em um sinal que pode evidenciar fraqueza na sua posição militar, os houthis anunciaram nesta segunda que consideram o espaço aéreo da Arábia Saudita um teatro de operações, o que significa ameaça direta para qualquer voo comercial que passe por lá.

Se cumprida, a ameaça tem implicações para as empresas aéreas do Golfo Pérsico, como a Emirates, que usa território saudita em muitas de suas rotas internacionais, como o voo diário que liga São Paulo a Dubai, que de todo modo passa bem mais ao norte da região em conflito.

Há também uma crise humanitária em curso, com mais de 180 mil iemenitas deixando suas casas nas regiões de combate mais intenso.